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quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Poema de Almeida Garrett - Nascido a 4 de Fevereiro de 1799


Destino

Quem disse à estrela o caminho 
Que ela há-de seguir no céu? 
A fabricar o seu ninho 
Como é que a ave aprendeu? 
Quem diz à planta «Florece!» 
E ao mudo verme que tece 
Sua mortalha de seda 
Os fios quem lhos enreda? 

Ensinou alguém à abelha 
Que no prado anda a zumbir 
Se à flor branca ou à vermelha 
O seu mel há-de ir pedir? 
Que eras tu meu ser, querida, 
Teus olhos a minha vida, 
Teu amor todo o meu bem... 
Ai!, não mo disse ninguém. 

Como a abelha corre ao prado, 
Como no céu gira a estrela, 
Como a todo o ente o seu fado 
Por instinto se revela, 
Eu no teu seio divino . 
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver, 
Só por ti posso morrer. 

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

segunda-feira, dezembro 15, 2014

A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis

"A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. [...]um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. [...] Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada.[...] o português abusou de civilizar-se. Está nisto a essência da nossa crise. [...] As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. [...]A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto." - Fernando Pessoa